Maria Antonieta Josefa Joana de Habsburgo-Lorena

"...posso dizer, sem paradoxo, que só tenho fé na dúvida, a exemplo, na minha pequenez humana, de ter Deus a liberdade como sua única lei; quer dizer esta segunda parte que Deus está sempre inventando e sempre com uma infinita possibilidade de mais inventar, como se ainda não tivesse inventado nada; como o que inventa me aparece a mim, preso nas malhas de espaço e tempo, quase sempre como em pares de contrários, nunca me tomo decididamente por um ou outro termo do par, senão quando se trata das definições práticas da vida: por exemplo, é melhor que o povo coma do que não coma...



...o mundo em que vivo é uma equação: não me importo como o que significam os termos; sei apenas que são iguais; então todo  mistério reflui ao próprio sinal de igualdade que os separa e os une; mas só saberei desse mistério quando não houver mais membros de equação e quando, portanto não tiver o sinal qualquer espécie de significado; o que talvez só se realize a nosso nível, na viva morte dos santos; repetirei ideias para que fiquem, senão bem claras, pelo menos bem lembradas, e me não atribuam outras: nos santos de qualquer religião, ou de nenhuma; os quais devem estar incluídos, para os católicos, nas celebrações litúrgicas do primeiro de Novembro."

Caçadores de borboletas


Segundo Jacques Lacarrière, no seu livro Os Homens Embriagados de Deus, pensar o deserto é uma questão que se impõe para compreender um tipo de movimento ou de errância que atravessou efectiva imaginariamente o percurso da nossa cultura. A questão que abre o seu prefácio pergunta se os desertos do Oriente Próximo deixaram de ser hoje o lugar de experiências soberanas. Ligados agora à ideia do petróleo e do combustível, eles terão perdido aquilo que os caracterizou por tantos séculos, a saber, uma espécie de nudez que rejeitava a história para os confins das suas areias, onde nada se mexia ou parecia "progredir"? "Os desertos eram o lugar do imovente, de uma virginidade perpétua onde os homens terminam por se parecer com os anjos".


Num tal mundo, o homem é uma presença absurda que só pode viver nele tornando a si mesmo um peso morto do tempo. Eis porque durante séculos este lugar extremo só obrigou hirsutos fantasmas, sombras desencarnadas, restos de seres humanos que os testemunhos de então chamavam de atletas do exílio, homens que sobreviviam e procuravam um lugar cujo sintoma mais imediato é o de não se constituir num território, compreendido como um espaço regulado por leis e normas de ocupação, trânsito, habitação, etc."