...ainda na liberdade!

Um filósofo não reflecte sobre a “diferença” entre filósofos, porque fazê-lo seria afirmar a precariedade e sem-razão da filosofia que é a sua. Como o crente em face de um descrente ou de uma crença diferente. Há um impensável no que é a nossa crença ou profundo pensar – que se identificam – e que mergulha até ao incognoscível de nós. E não pensemos no inconsciente freudiano, que é, se for, um domínio restrito para o incomensurável do homem. Dos infinitos acasos, acidentes, encontros ou desencontros que nos aconteceram, da família que nos calhou ao ambiente em que aprendemos a terra da nossa origem, dos livros que lemos ou não e da idade em que eles puderam ou não ser em nós os livros que eram, do que fomos por nós ou outros em nós, do tempo em que nos aconteceu nascer, do sem-fim dos nossos possíveis e do que deles se possibilitou – um substrato fica no subsolo de nós. E é nesse substrato que se define a nossa liberdade no modo de o harmonizar, numa escolha originária, com a pessoa que somos, ou seja com essa mesma liberdade.

A última decifração ou esclarecimento da liberdade do homem é a que se situa no intervalo infinito e infinitesimal entre si e si. E a que apenas a pode afirmar é o que a identifica com a nossa pessoa. Assim o seu paradoxo é o de sermos quem queremos ser e não podermos deixar de o querer, ou seja, termos de o querer. Pois como poderemos deixar de ser quem somos, ou seja ser outra pessoa?E como afirmar melhor a liberdade senão sendo quem desejamos ser, ou seja nós próprios? Mas o homem é tão fora do inteligível. Há que suster a razão antes de ser sem-razão, enrolada no fio que desenrola. A liberdade vive-se no seu incompreensível, que é o normal compreensível do homem.” 

...hasta la incognoscible fisura

"...El pirata tiene el poder de interrumpir el circuito de la producción, de descarga la noria de la producción, pero, sin embargo, no es ajeno a todo ese montaje. Precisamente subsiste gracias a esas redes económicas y comerciales que él mismo descompone. Lo cual forma el símbolo de sus relaciones con el tiempo, con la civilización o con la historia: una voluntad furiosa de separarse de todo eso y la fatalidad de depender de ello.
La actividad del pirata viene a parar entonces en un juego del escondite entre él, paria y la sociedad. A veces logra romper el muro del tiempo y abrirse paso, pero una vez en el exilio, ¿cómo acomodarse a ese no man's land entre la eternidad y el instante? Tiene que reintegrarse, por más o menos tiempo, en el siglo del cual ha desertado. El mismo barco que ha llevado su cargamento de bribones al más allá radiante de los mares tropicales, entre el Génesis y la estrella Absinta, una orden del capitán va a lanzarlo de nuevo, por una temporada, a los caminos de su tiempo. Regresa a la historia, y en ella efectúa sus depredaciones y hace acopio de tesoros y provisiones. Cuando está colmado de los bienes de este mundo, rápidamente hace rumbo hasta la incognoscible fisura por la que deslizarse otra vez fuera del tiempo.
Estas idas y venidas del interior al exterior de la historia ritman la epopeya del pueblo del mar. El pirata siempre está en precario respecto a los asuntos del mundo; los precede o los sigue, pero no está en hora."