...justifica-se assim uma saudade do que se quer perder.


" Lisboa é o rio. O resto são os olhos das casas voltados para ele. Ou para a memória de quem sabe que está lá. Não vejo o rio donde moro, eu. Não vivo portanto em Lisboa mas no que sobeja dela em bairro ou campo adjacente. Deve ter sido também por isso que a não aprendi a amar. Fantasio-me assim a morar donde visse o rio ao abrir as janelas pela manhã e houvesse barcos, cais de atracamento, talvez gritos de gaivotas e eu pudesse assim inserir-me nas grandes navegações e recuperar a minha memória marítima de português que perdi. E ser de novo eu com mais quinhentos anos a esclarecerem-me a identificação."

Níntimo Ver



Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
o beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!