Caçadores de borboletas


Segundo Jacques Lacarrière, no seu livro Os Homens Embriagados de Deus, pensar o deserto é uma questão que se impõe para compreender um tipo de movimento ou de errância que atravessou efectiva imaginariamente o percurso da nossa cultura. A questão que abre o seu prefácio pergunta se os desertos do Oriente Próximo deixaram de ser hoje o lugar de experiências soberanas. Ligados agora à ideia do petróleo e do combustível, eles terão perdido aquilo que os caracterizou por tantos séculos, a saber, uma espécie de nudez que rejeitava a história para os confins das suas areias, onde nada se mexia ou parecia "progredir"? "Os desertos eram o lugar do imovente, de uma virginidade perpétua onde os homens terminam por se parecer com os anjos".


Num tal mundo, o homem é uma presença absurda que só pode viver nele tornando a si mesmo um peso morto do tempo. Eis porque durante séculos este lugar extremo só obrigou hirsutos fantasmas, sombras desencarnadas, restos de seres humanos que os testemunhos de então chamavam de atletas do exílio, homens que sobreviviam e procuravam um lugar cujo sintoma mais imediato é o de não se constituir num território, compreendido como um espaço regulado por leis e normas de ocupação, trânsito, habitação, etc."