...ainda na liberdade!

Um filósofo não reflecte sobre a “diferença” entre filósofos, porque fazê-lo seria afirmar a precariedade e sem-razão da filosofia que é a sua. Como o crente em face de um descrente ou de uma crença diferente. Há um impensável no que é a nossa crença ou profundo pensar – que se identificam – e que mergulha até ao incognoscível de nós. E não pensemos no inconsciente freudiano, que é, se for, um domínio restrito para o incomensurável do homem. Dos infinitos acasos, acidentes, encontros ou desencontros que nos aconteceram, da família que nos calhou ao ambiente em que aprendemos a terra da nossa origem, dos livros que lemos ou não e da idade em que eles puderam ou não ser em nós os livros que eram, do que fomos por nós ou outros em nós, do tempo em que nos aconteceu nascer, do sem-fim dos nossos possíveis e do que deles se possibilitou – um substrato fica no subsolo de nós. E é nesse substrato que se define a nossa liberdade no modo de o harmonizar, numa escolha originária, com a pessoa que somos, ou seja com essa mesma liberdade.

A última decifração ou esclarecimento da liberdade do homem é a que se situa no intervalo infinito e infinitesimal entre si e si. E a que apenas a pode afirmar é o que a identifica com a nossa pessoa. Assim o seu paradoxo é o de sermos quem queremos ser e não podermos deixar de o querer, ou seja, termos de o querer. Pois como poderemos deixar de ser quem somos, ou seja ser outra pessoa?E como afirmar melhor a liberdade senão sendo quem desejamos ser, ou seja nós próprios? Mas o homem é tão fora do inteligível. Há que suster a razão antes de ser sem-razão, enrolada no fio que desenrola. A liberdade vive-se no seu incompreensível, que é o normal compreensível do homem.”