...justifica-se assim uma saudade do que se quer perder.


" Lisboa é o rio. O resto são os olhos das casas voltados para ele. Ou para a memória de quem sabe que está lá. Não vejo o rio donde moro, eu. Não vivo portanto em Lisboa mas no que sobeja dela em bairro ou campo adjacente. Deve ter sido também por isso que a não aprendi a amar. Fantasio-me assim a morar donde visse o rio ao abrir as janelas pela manhã e houvesse barcos, cais de atracamento, talvez gritos de gaivotas e eu pudesse assim inserir-me nas grandes navegações e recuperar a minha memória marítima de português que perdi. E ser de novo eu com mais quinhentos anos a esclarecerem-me a identificação."