Ciência do inanimado

O papagaio

Havia em um dos arrabaldes de Lisboa um homem chamado Silva. Este Silva casará, já pouco jovem, com uma viúva que tinha uma filha meio mulher. A mulher do Silva passou cedo a dominal-o; e a enteada, á medida que crescia, mais e mais ajudava a mãe no seu imperio domestico.
O Silva passou a ser um trapo humano. Deixou de ter personalidade, vontade e logar. Em tudo, na vida domestica como na que não era, era uma sombra do desejo da mulher, quando o não era da vontade, por vezes até espontanea, da filha d'ella.
Como o dominio gera o desprezo, e o desprezo gera tudo, a mulher do Silva, apesar de não ser de espirito leviano, foi levada, pelas circumstancias, a trahir o marido. O amante, que era um individuo que fôra promovido a primo d'ella para effeitos decorativos, foi elevado a quasi residente na casa, e o Silva, que não podia ignorar a sua categoria sexual, tinha que o receber, que lhe sorrir bem e que lhe exprimir, por palavras e modos, o prazer que lhe dava excessiva visita. E assim fazia o Silva.
Mais tarde, conseguiu a mulher do Silva que o amante fosse nomeado por este gerente e administrador das suas propriedades, d'elle Silva. E assim seguia e se consumava o dominio do marido, mero animal pagante naquella engrenagem de domesticação.
Ora o Silva tinha um papagaio- ave já velha e nem porisso muito esperta:gritava mais do que fallava, era sempre a mesma coisa. Um dia a mulher do Silva, maçada, muito legitimamente, com o vozear do passaro, ergueu-lhe o poleiro da escápula sobre  o quintal e vendeu-o a um viandante qualquer.
Quando o Silva voltou, á noite, para casa, e lhe faltou, de ahi a minutos, a voz rouca da ave, procurou-a na escapula da parede sobre o quintal, não a viu, e foi á casa de jantar perguntar á mulher por ella.
"vendi-o", disse ella, e a enteada ria. O Silva retirou-se como de costume, sem dizer nada.
Foi, porem, ao quarto de cama, tirou o revolver da gaveta da mesa de cabeceira, voltou á casa de jantar e, com dois tiros calmos, certos e sucessivos, matou a mulher e a enteada.

Moralidade

Nações imperiaes e dominadoras,/expansivas/:não toquem no papagaio!