A ponta da lança de Quixote



“O facto de que a Reforma, evento inteiramente diferente, ter acabado por nos colocar perante um fenómeno semelhante de alienação, que Max Weber identificou, sob o nome de “ascetismo do mundo interior”, como as mais recôndita fonte da nova mentalidade capitalista, talvez seja uma das muitas coincidências que tornam tão difícil ao historiador deixar de acreditar em fantasmas, demónios e Zeitgeists. O que mais nos surpreende e perturba é ver semelhança onde as coisas mais divergem.Pois essa alienação no sentido de um mundo interior nada tem a ver, em intenção ou conteúdo, com a alienação em relação à Terra, decorrente da descoberta e da posse do Planeta.
Além disso, a alienação no sentido em direcção a um mundo interior, cuja a autenticidade histórica Max Weber demonstrou no seu famoso ensaio, está presente não apenas na nova modalidade resultante das tentativas de Lutero e Calvino de restaurar a inflexivél qualidade extramundana da fé cristã; está igualmente presente, embora a um nível inteiramente diverso, na exproprieção dos bens da Igreja e, como tal, o factor isolado mais importante no colapso do sistema feudal. Naturalmente, seria ocioso especular sobre o que teria sido o curso da nossa economia sem esse evento, cujo impacte lançou a humanidade ocidental num rumo de coisas em que toda a propriedade esra destruída no processo de expropriação, tudo era devorado no processo de produção, e a estabilidade do mundo era minada num constante processo de mudança. Tais especulaçãoes, porém, são significativas na medida em que nos fazem lembrar que a história é uma série de eventos, e não de forças ou ideias de curso previsível. São ociosas e até perigosas quando usadas como argumento contra a realidade, ou quando se destinam a indicar potencialidades e alternativas positivas, visto que o seu número é ilimitado por definição e lhes falta a tangível inesperabilidade do evento, que elas procuram compensar com a mera plausibilidade. Assim, não deixam de ser fantasmas, por mais prosaica que seja a forma sob a qual são apresentadas.

Para que não subestimentos o impacte que este processo adquiriu através de séculos de desenvolvimento quase desenfreado, convém talvez reflectir sobre o chamado “milagre económico” alemão do pós-guerra, que só é milagre se visto dentro de um sistema de referência ultrapassado. O exemplo alemão demonstra claramente que, nas condições modernas, a expropriação de pessoas, a destruição de objectos e a devastação de cidades estimulam radicalmente um processo não de mera recuperação, mas de acumulação de riqueza ainda mais rápido e mais eficaz – bastando para isto que o país seja suficientemente moderno para reagir em termos de processo de produção. Na Alemanha, a destruição pura e simples substitui o inexorável processo de depreciação de todas as coisas mundanas, processo este que caracteriza a economia de desperdício na qual vivemos. 

O resultado foi quase o mesmo: um surto de prosperidade que, como demonstra a Alemanha do pós-guerra, se alimenta não da abusndância de bens materiais ou de qualquer outra coisa estável e dada, mas do próprio processo de produção e consumo. Nas condições modernas, a bancarrota decorre não da destruição, mas da conservação, porque a própria durabilidade dos objectos conservados é o maior obstáculo ao processo de reposição, cuja velocidade em constante crescimento é a única coisa constante que resta onde se estabelece esse proceso.”