Homo brutus


"Comecei assim a acreditar nas descrições literais dos meus amigos Quirishari, mesmo quando não compreendia os mecanismos do seu saber.
Por outro lado, ao partilhar o seu quotidiano, era continuamente surpreendido pelo seu profundo sentido prático. Não se falava em fazer coisas; elas faziam-se, simplesmente. Por exemplo, um dia em que caminhava pela floresta na companhia de um homem chamado Rafael, mencionei o facto de precisar de um cabo novo para o meu machado. Ele deteve-se e de imediato, dizendo "ah, sim" e depois cortou com o seu machete uma pequena árvore de madeira dura a alguns passos do trilho, e começou a esculpir um cabo impecável que iria durar mais tempo do que o próprio machado. Trabalhou cerca de vinte minutos no local, em plena floresta para fazer o grosso do trabalho, e vinte minutos suplementares em casa, para ajustamentos finais. Trabalho perfeito, feito a olho. Até então eu sempre pensara que os cabos de machado se compravam nas lojas de ferragens.
Uma atitude comum das pessoas Quirishari era ensinar através do exemplo, e não pela explicação. Assim, os pais encorajavam os filhos a acompanhá-los nas suas actividades. A frase "deixa o pai sossegado, ele está a trabalhar" era desconhecida. As pessoas desconfiavam das explicações abstractas. Quando uma ideia lhes parecia realmente má, diziam com desdém: "Es pura teoría". As duas palavras-chave que utilizavam a propósito de tudo e de nada das nossas conversas eram prática e táctica - decerto por serem essenciais para se viver na floresta tropical.
A paixão dos Ashaninca pela prática explica, pelo menos em parte, o seu fascínio geral pela tecnologia industrial. Um dos seus tópicos de conversa consistia em perguntar como fabricava eu os meus objectos: caixas de cassetes, isqueiros, botas de borracha, canivete suíço, pilhas eléctrica, etc. Quando respondia que não sabia como fazê-los, ninguém parecia acreditar."